Para uma compreensão abrangente de como a filosofia grega se racionalizou, cumpre-se compreender a importância do mito no contexto da Grécia Antiga. A narrativa mitológica buscava explicar, por meio de símbolos, os grandes mistérios do universo. Entre esses temas, destacam-se a origem do mundo (cosmogonia), os diversos fenômenos da natureza e as questões relacionadas ao sofrimento, à vida e à morte, além de dilemas morais e éticos. Os mitos exerciam papel importante na caracterização e cosmovisão de um povo, pois criavam um imaginário coletivo que dava sentido à existência humana.
Além dos gregos, os nórdicos e os egípcios notabilizam-se pelo grande número de contos mitológicos. A mitologia (mýthos - narrativa) utilizava-se de seres sobrenaturais, como os heróis e os deuses, atribuindo-lhes características humanas físicas e emocionais. Os deuses eram, nessa perspectiva, as forças geradoras e reguladoras de toda a realidade física e social. Entre as fontes desse período figuram a Teogonia de Hesíodo e a Ilíada de Homero.
Por volta do século VI a.C., na cidade-estado de Mileto, nasceram Tales — o primeiro filósofo da história — e seus sucessores Anaximandro e Anaxímenes. Esses primeiros pensadores inauguraram o que ficou conhecido como Período Pré-Socrático ou Filosofia Pré-Socrática. Eles buscavam a causa imanente, o princípio material (arché) no cosmos que explicasse a origem e a ordem de tudo o que existe. Aos três milésios e a tantos outros nomes que se engajaram na mesma busca, Aristóteles designou como ‘fisiólogos’ (physiologoi) — ou ‘filósofos da natureza’. Esse processo que caracteriza a racionalização do pensamento grego é conhecido como “A Transição do Mito ao Logos (razão)”.
De forma gradual, buscava-se dar uma explicação racional à natureza (physis) com base em argumentos lógicos (cosmologia); entretanto, a dimensão da sacralidade estava presente no pensamento filosófico. É notória, nesse sentido, a afirmação de Tales, segundo a qual “tudo está cheio de deuses". A frase não indica um retrocesso mitológico, mas sinaliza que a própria matéria possui um princípio vital e motor interno. Os pré-socráticos, portanto, deram início ao distanciamento que teve sua conclusão com o sistema aristotélico, quando a racionalidade grega atinge seu rigor lógico e científico máximo.
Percebe-se que a transição da cosmogonia para a cosmologia não aconteceu de modo abrupto, mas representou profundas mudanças na percepção da realidade entre os gregos. A explicação do mundo, que era dada por meio de figuras divinas e mitológicas, deu lugar a investigações baseadas na racionalidade. Conhecidos posteriormente como os Pré-Socráticos, foram eles os atores principais dessa nova forma de pensar o cosmos em sua imanência, encontrando nele o princípio constitutivo e ordenador (arché). Estabelecem, dessa forma, o rigor racional como fundamento da filosofia e das ciências no mundo ocidental.
Você acredita que a nossa ciência moderna ainda guarda traços do pensamento mitológico?
By Ednaldo Teixeira
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