Quanto à religiosidade, ela não era tratada de forma separada dos assuntos militares e administrativos. O sagrado e o político não se separavam. Antes um patrimônio monárquico, era praticada também no seio familiar (genos) e, mais tarde, no espaço público da cidade, não possuindo textos sagrados nem uma classe sacerdotal dogmática. Os deuses, previamente restritos ao palácio, eram cultuados de forma coletiva, sem entrar em conflito com uma autoridade religiosa centralizada. Essa popularização e laicização do sagrado facilitaram a evolução do pensamento racional que não devia submissão a dogmas institucionais. Assim, os filósofos investigavam a natureza sem serem julgados por heresias doutrinárias.
A aristocracia do século VII a.C era estigmatizada pela ostentação de riqueza e poder, o que levava à insatisfação das camadas populares. Novos grupos sociais foram surgindo, buscando um equilíbrio na situação social tão desigual causada pela grande concentração de terras pelos aristocratas. Dessas tensões, emergiram os legisladores e os mediadores, com destaque para Sólon, que tinham o papel de criar leis que protegessem o povo dos excessos dos nobres e possibilitassem o tão necessário equilíbrio. O caminho para isso foi transferir o poder das decisões das famílias aristocráticas para o debate público. Nesse cenário de profundas transformações, a introdução da moeda foi um passo importante na padronização de valores que eram arbitrariamente determinados pelos nobres.
Como se pode perceber, o novo sistema jurídico conferia igualdade entre os cidadãos, além de favorecer a discussão e a persuasão. A popularização da religião, o equilíbrio de forças antes conflitantes, o contato com os povos do Oriente Próximo e as navegações comerciais que resultaram em trocas culturais significativas, formaram o terreno propício ao nascimento da racionalidade grega. Embora o texto clássico de Vernant evidencie a estrita origem política desse processo, temos, por outro lado, a proposição de McKirahan enfatizando que esse cenário também contribuiu para “uma acumulação de riqueza suficiente para prover a alguns o ócio necessário para o pensamento especulativo” (McKIRAHAN, 2013, p. 60). O ócio (skholé) era uma atividade reservada a homens livres que praticavam a contemplação (theoria).
Filha da Pólis
Muito se questiona se os fatores elencados foram ou não determinantes para o surgimento da filosofia, já que condições semelhantes de riqueza ou comércio existiam em outras civilizações da época. A filosofia nasce no período de transição para o modelo das cidades-estado, quando o debate público, a participação política e a palavra ganhavam lugar central nesse cenário emergente; cenário este que demandava novo modelo de pensamento. No que diz respeito à razão grega “dentro de seus limites como em suas inovações, é filha da cidade” (VERNANT, 2025 [1962]. p. 153). De modo que, se não for possível uma causa única e conclusiva, uma coisa é certa: a estrutura política da pólis foi condição indispensável para o nascimento da filosofia.
Será que o pensamento livre só é possível quando as leis garantem equilíbrio e tempo para o ócio?
By Ednaldo Teixeira.
Deixe o seu comentário: