Contexto Histórico - Mileto
Localizada na antiga Jônia, na costa da Ásia Menor (atual Turquia), Mileto destacou-se como uma importante pólis e centro comercial do Mediterrâneo Oriental, exercendo influência também no urbanismo por meio de Hipódamo e de seu traçado urbano em grade. O intenso intercâmbio com povos como egípcios, lídios e babilônios favoreceu um ambiente intelectual voltado à investigação racional da phýsis (natureza). Por isso, Mileto é tradicionalmente considerada um dos principais berços da filosofia ocidental. Nela floresceu a Escola de Mileto, representada por Tales, Anaximandro e Anaxímenes, cujas reflexões sobre a arché (princípio originário de todas as coisas) lançaram as bases do pensamento racional na tradição filosófica grega.
Vida
Tales é tradicionalmente considerado, pela historiografia da filosofia, o primeiro filósofo da tradição ocidental e primeiro filósofo da natureza (physikós). Viveu aproximadamente entre c. 624 e 546 a.C., passagem do século VII para o século VI a.C. Natural de Mileto, na Jônia – litoral oeste da atual Turquia – ele inaugurou a tradição filosófica baseada na investigação racional da natureza. Como observa McKirahan (2013), “trata-se de figura única dentre os primeiros filósofos por estar associado a um espectro tão amplo de atividades”. Ainda segundo a tradição, atuou como comerciante, engenheiro, político, astrônomo e conselheiro. No campo da matemática, a tradição também lhe atribui demonstrações geométricas, posteriormente associadas ao conhecido Teorema de Tales.
Suas diversas viagens lhe possibilitaram contato com outros povos – egípcios e babilônicos – de tradição científica mais antiga que lhe transmitiram amplo conjunto de conhecimentos. Seu vasto repertório intelectual consolidou seu legado como um dos principais marcos do pensamento racional no Ocidente. Com Tales iniciou-se a busca por explicações racionais para os fenômenos naturais numa época em que filosofia, matemática e astronomia integravam uma única frente investigativa.
Como não existem escritos autênticos de sua autoria, a filosofia de Tales é conhecida apenas por testemunhos preservados pela tradição antiga. Autores antigos como Heródoto, Simplício e Diógenes Laércio preservam a tradição que inclui Tales entre os “Sete Sábios” - homens de destacado saber da Grécia Antiga. Tales representa a transição das narrativas míticas para a investigação filosófica da natureza. Sua filosofia marca a passagem da explicação cosmogônica – de caráter mítico – para uma investigação racional da origem, constituição e transformação do universo (kósmos).
Filosofia - Indrodução
Em sua filosofia, Tales propôs que a água era o princípio originário (arché) de todas as coisas, inovando ao buscar um princípio único e natural para explicar de modo racional a diversidade dos fenômenos e dos seres. Essa busca inaugura uma forma de investigação baseada na observação e na razão, distanciando-se das narrativas míticas. Foi principalmente Aristóteles quem consolidou, na tradição filosófica, a figura de Tales como primeiro filósofo da tradição ocidental.
Curiosidades
Heródoto, importante historiador grego, relata que Tales teria previsto um eclipse solar, tradicionalmente identificado com o de 585 a.C. Surpreendidos porque “o dia transformou-se em noite”, os exércitos lídio e medo interromperam imediatamente a batalha de Halis, selando um acordo de paz. Esse episódio contribuiu para consolidar sua reputação como sábio entre os gregos.
Há uma proeza anedótica atribuída a Tales que contribui para sua fama de engenheiro: o desvio do curso do rio Halis. Segundo Heródoto, Tales teria ordenado a escavação de um canal em forma de lua crescente, desviando parte do fluxo das águas do leito principal, o que possibilitou a passagem do exército do rei Creso.
Aristóteles relata que, criticado quanto à utilidade da filosofia, Tales utilizou seus conhecimentos astronômicos para prever uma grande colheita de azeitonas. Alugou por um preço baixo todas as prensas de óleo, ainda no inverno, quando não havia interessados. No período da colheita, sublocou as prensas a preços mais altos, auferindo grande lucro. Com essa façanha, demonstrou que um filósofo pode ganhar dinheiro com o conhecimento que possui, mas seu propósito está mais relacionado à sabedoria (sophía) do que ao acúmulo de riquezas.
No diálogo Teeteto, Platão narra uma célebre anedota sobre Tales. Na narrativa, o filósofo andava à noite observando as estrelas, procurando compreender a natureza (phýsis) e a ordem do cosmos (kósmos). Entretido com o céu noturno, caiu em um buraco. Então, a serva que o acompanhava o repreendeu, dizendo que ele desejava conhecer as coisas do céu, mas não percebia o que estava diante dos próprios pés.
By Ednaldo Teixeira
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