Esse é o terceiro e último episódio da série “A Primeira Arte”, da plataforma Brasil Paralelo e já começa com a profunda reflexão de Arthur Schopenhauer: “A música é um exercício oculto de metafísica, sem que o espírito saiba que está filosofando”. Em outras palavras, a arte musical é interpretada como a filosofia pura expressa em harmonia, melodia e ritmo.
O episódio “Dissonância” apresenta correspondências entre aspectos da música, as dimensões da natureza e a existência humana. O ápice da narrativa é a síntese entre as infinitas possibilidades melódicas e as contraditórias expressões de nossas aspirações e disposições, fazendo da música a linguagem mais universal da humanidade.
Os tons graves possuem menor mobilidade e servem como o fundamento para a expressão de todas as coisas, remetendo à estabilidade e à massa bruta do planeta. Os intermediários, mais dinâmicos, relacionam-se aos corpos inconscientes, mas dotados de alguma expressão, como as plantas e os animais. Já os tons agudos, como voz principal, trazem dinamismo à composição e representam a vida consciente e as realizações alcançadas pela reflexão humana, conectando todos os significados e possibilidades ao todo.
Adiante, são apresentados vários compositores, o contexto histórico e suas expressões musicais. Claude Debussy, músico e compositor francês, destaca-se como o primeiro compositor do impressionismo musical. Priorizava o caráter atmosférico e melancólico e valorizava a beleza de cada momento. Na Alemanha, destaca-se Richard Wagner, cujas expressões eram exacerbadas pelo drama musical que une à sua música extremamente complexa o teatro, a dança e a poesia. Ambos exploraram a dissonância e ritmos inusitados. Já no século XX Arnold Schoenberg criou a música atonal que utilizava as doze notas da escala cromática, tornando as composições complexas e voltadas para um público mais crítico.
No campo tecnológico, Thomas Edison criou em 1877 o primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir sons: o fonógrafo. Os discos foram responsáveis pela mudança radical na estrutura musical, pois eles comportavam apenas três minutos de música em cada lado. As ondas de rádio, antes utilizadas em navegações e para fins militares, ganhavam espaço entre cidadãos comuns, numa nova era na difusão musical.
O texto avança para o Blues, que surgiu no final do século XIX, nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos. Criado por escravizados africanos, o gênero pretendia amenizar suas angústias e tristezas. Após o contato com os corais de música gospel, consolidou-se o uso das blue notes. Décadas após a libertação dos escravos, ficou cada vez mais conhecido. Com acréscimo de instrumentos, surgiram as big bands na primeira metade do século XX, que popularizaram o jazz e, mais tarde, lhe deram nova roupagem e o chamaram de Swing.
Na década de 1950, da fusão de ritmos Afro-Americanos – blues, gospel e R&B – com country e o folk, surgem o Rock and Roll e seus expoentes. Elvis Presley, nos EUA, gravou seu primeiro disco em 1954, quebrou barreiras raciais da época e surgiu com sua “rebeldia capaz de conquistar jovens do mundo inteiro”. No cenário britânico, Rolling Stones e Beatles, figuraram entre as bandas mais conhecidas de todos os tempos. Já na década de 1980, Michael Jackson consagrou-se o Rei do Pop com uma carreira solo marcada por álbuns icônicos e videoclips cinematográficos. Na mesma época, Madonna foi reconhecida como a Rainha do Pop, abordando temas sensíveis em suas músicas, tornou-se a artista feminina de maior sucesso comercial da história.
Ocupando a lacuna dos que não se sentiam representados pela música do rádio e da TV, surgiu o Hip Hop utilizando apenas ritmo e poesia (rap) para expressar fatos do cotidiano, insatisfações, protestos e visões de mundo periféricas, alcançando forte presença no “mainstream” nos anos 1970. Representado por nomes como Dr. Dre, Snoop Dogg, Eminem e 50 Cent, o gênero superou o rock nos EUA como gênero mais ouvido em 2017. Com novas vertentes focadas em ostentação e luxo, tornou-se um dos estilos mais consumidos no planeta.
As produtoras musicais que formaram enormes impérios financeiros sentiram-se ameaçadas por softwares de distribuição digital não autorizada e gratuita de músicas na virada do milênio. Gerou muita insatisfação entre as produtoras e as bandas. Então, a Apple inovou vendendo músicas avulsas buscando mitigar o problema e, logo depois, a sueca Spotify criou uma plataforma de assinatura a custo baixo que passou a disponibilizar todo o catálogo existente e a música fica cada vez mais acessível. Mas trouxe novos desafios econômicos para a cadeia produtiva.
Sob a perspectiva crítica dos especialistas convidados pelo documentário, a produção musical em massa pode levar à simplificação estrutural, tornando as composições melódica e harmonicamente superficiais e muito parecidas, com letras que apelam a resultados comerciais instantâneos. O principal impacto desse cenário é a “venda de um código de conduta social” que está sempre se atualizando para alcançar as massas. Assim, o gosto musical parece oscilar muito rapidamente, de acordo com as tendências de mercado.
No Brasil, o Funk teve origem nos bailes do Rio de Janeiro e rapidamente conseguiu acessar todas as camadas sociais brasileiras. Ao chegar a São Paulo, consolidou-se por meio de vertentes como o funk de ostentação e o funk proibidão, conquistando rápida projeção internacional. As letras narram a realidade das comunidades, abordando tópicos como dinheiro, dinâmica de relacionamentos e o cotidiano, moldando o imaginário e o comportamento de muitos jovens.
Ao final, os nobres entrevistados nos conduzem a algumas importantes reflexões:
A verdade é que podemos ser produto ou criadores da realidade, na medida em que somos responsáveis quanto ao que ouvimos e ao que a música produz em nós. Isso porque a música cria e incentiva os caminhos para onde estamos indo. Defende-se que o objetivo maior é elevar a alma humana e unificar os anseios do intelecto e do coração. Nesse sentido, essa arte tem a capacidade de harmonizar nossos afetos com o que for bom, belo e verdadeiro. Em última análise, se a música pode transformar indivíduos, ela pode transformar o mundo.
Você acredita que a música tem poder de transformar não só indivíduos, mas também o modo de ser e de pensar de toda uma coletividade?
By Ednaldo Teixeira
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